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El tango es la vida

Luis Fernando Verissimo

Cenas da frente de batalha.

Alguém na mesa exibe o seu telefone celular último tipo, que faz e recebe chamadas, grava mensagens e músicas, acessa a internet, tira fotografias e as transmite para qualquer PC.

Faça o seguinte. Diga:

- Ah, é? Mas ele faz isto?

E tire um pente do bolso e comece a se pentear.

Ou espere o celular de cada um na mesa tocar pelo menos uma vez antes de dizer, “Epa, agora sou eu”, tirar do bolso uma gaita de boca, tocar uma frase musical e depois guardá-la.

Somos poucos e temos poucas armas, mas não podemos nos entregar pra eles.


O BILU

Dona Nininha tem contado que seu cachorro, o Bilu, sentiu o terremoto que deu origem à tsunami. Ela fez todos os cálculos e concluiu que o horário do terremoto coincidiu com o momento em que, por nenhuma razão aparente, o Bilu acordou sobressaltado e ficou com a cabeça levantada, como se ouvisse um ruído distante, e depois voltou a dormir. As pessoas tentam convencer dona Nininha que, está certo, os bichos têm uma sensibilidade especial, mas é muito pouco provável que o Bilu tenha sentido o terremoto que deu origem às ondas assassinas no outro lado do mundo. E, principalmente, que ela não pode continuar assim, pulando em cima do armário toda vez que o Bilu levanta a cabeça.


RAUL

O fato é que estamos todos muito fragilizados, psicologicamente, depois das tsunamis. Somos seres insignificantes nos equilibrando sobre placas tectônicas flutuantes que não querem nem saber de nossas vidas efêmeras, muito menos – como disse o pai da Leninha quando recebeu a notícia – que nossa filha vai casar com um argentino.

- Mas Adriano – ainda tentou argumentar a mãe da Leninha – um argentino!

O que é um genro argentino diante da precariedade da existência e a indiferença do Universo?

Raul, o argentino, não é apenas um argentino. É um argentino clássico, da pomada dos sapatos ao verniz dos cabelos. No dia em que Leninha o apresentou em casa, Raul se inclinou na direção de Adriano e disse, com seu barítono portenho, puxado de uma caverna hormonal:

- El tango es la vida.

Em outras circunstâncias, Adriano teria reagido ao argentino.

Como, o tango é a vida? Não é não. Mas, psicologicamente fragilizado pelas tsunamis, Adriano não reagiu. Disse “anrã”, abjetamente. E na outra noite, antes de dormir, confidenciou à mulher que estava desenvolvendo uma teoria cuja premissa básica era a seguinte: o tango É a vida.

Entende? No tango se está sempre a um centímetro do desequilíbrio e da tragédia, mas nunca se cai. Não é uma dança, é um estratagema.

Com suas hesitações dramáticas, suas idas e vindas e frequentes mudanças de rumo, o tango era a única maneira de se andar conscientemente sobre placas tectônicas flutuantes. Raul tinha razão. E outra coisa, segundo Adriano. O argentino era o único povo da Terra que jamais se sentiria diminuído diante da Natureza.

Leninha estava certa. Precisavam de um argentino na família!


Domingo, 16 de janeiro de 2005.



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